domingo, 1 de setembro de 2019

O VAZIO EXISTENCIAL E A BUSCA DE SENTIDO: Como evitar o primeiro e encontrar o segundo?




O cotidiano é o lugar onde a vida realmente acontece. Nele vivemos nosso dia-a-dia, nos relacionamos, realizamos nossas atividades e existimos. Entretanto, muitas vezes tal realidade se mostra a nós como uma pesada rotina. Os dias parecem que começam e terminam sem deixar nenhum vestígio importante em nossa memória, e temos a impressão de que a maioria deles não tem impacto no decorrer de nossa vida. Tal situação nos faz experimentar certo desânimo e dissabor na existência, como se as coisas cotidianas fossem perdendo sentido. Na verdade, nos encontramos frente à experiência do tédio ou vazio existencial. Experiência esta que nos descreve Erich Fromm em seu livro “A Vida Autêntica”: “O tédio é a sensação de futilidade vital, de que vivemos na abundância e carecemos de alegria, de que a vida nos escapa pelas mãos como areia, de que não sabemos aonde vamos, de que prevalece a confusão e a perplexidade”. [1]
No entanto, a constatação desta experiência de vazio existencial em nossas vidas nos leva a reflexão de um tema muito mais profundo. Faz-nos perceber a existência de um forte desejo presente no interior de cada homem: a vontade de sentido[2]. Paradoxalmente, quando nos percebemos submersos no tédio e experimentando a sensação de vazio existencial, surge também dentro de nós o desejo ardente de encontrar um sentido à vida, de encontrar-nos com uma realidade que possa fazer-nos simplesmente mudar e recuperar o brilho e a esperança que antes movia nossas ações e que agora, por vários motivos, parece que está adormecida. Você já parou para pensar sobre esta realidade que nos afeta no mais profundo de nosso ser? Você já se perguntou sobre essa vontade de sentido? Esta reflexão terá como objetivo esclarecer a problemática da busca de sentido, fundamentando-se nos estudos do psiquiatra e criador da Logoterapia, Viktor Frankl.
Este pensador era discípulo de Sigmund Freud, porém, ao viver três anos nos campos de concentração de Auschwitz, começou a discordar de seu mestre em alguns pontos de suas teorias. Em seu livro “Em Busca de sentido”, o autor nos descreve os horrores que viveu nos campos de concentração, mas principalmente, ressalta que somente sobreviveram aquelas pessoas que tinham algo por viver, uma esperança, um valor, um sentido... e neles se agarraram até o fim. Enquanto que aqueles que perdiam a esperança e que não encontravam um sentido para seguir em frente em meio a tantos sofrimentos, acabaram definhando. Tal constatação o levou a discordar das teorias materialistas de Freud, afirmando: “Alguns autores sustentam que os sentidos e valores são ‘nada mais que mecanismos de defesa, formações reativas e sublimações’. Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função dos meus ‘mecanismos de defesa’. Tampouco estaria pronto a morrer simplesmente por amor as minhas ‘formações reativas’. O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores!”.[3]
A partir disso, Frankl afirma que além de nossos mecanismos de defesa e reações instintivas ao ambiente que apontava Freud, o ser humano também possui um desejo fundamental, tão intenso quanto os instintos: a vontade de dar sentido à vida.  Como o próprio autor escreve:A busca do individuo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma ‘racionalização secundária’ de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido somente por aquela determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que satisfará sua própria vontade de sentido”. [4]
Sendo assim, a busca de sentido não é uma invenção do ser humano, mas uma necessidade fundamental que já está presente em seu interior. Tal necessidade pode ficar por muito tempo adormecida, como se a mesma não existisse. Mas em algum momento da vida ela sempre brota com força, provocando-nos a nos posicionar frente à existência, buscando um sentido à vida, um motivo pelo qual se mereça viver. Caso contrário, deparamo-nos com a experiência do vazio existencial e a ausência de sentido. Somente quando enfrentamos a vida a partir dessa necessidade de encontrar um sentido, é que descobrimos a felicidade e o prazer de existir. Porém, quando rejeitamos tal problemática, tudo parece carecer de significado. A vida torna-se uma angustiante rotina onde não há nada verdadeiramente novo ou que nos motive a vivê-la com intensidade.  Caímos, então, no tédio e no vazio existencial.
Em seus atendimentos como psicólogo, depois que ouvia as pessoas comentarem sobre seus problemas e dificuldades, Viktor Frankl lhes perguntava: “Se a situação é tão difícil assim... Por que você não comete suicídio?”. Depois do susto inicial com tal interrogação, imediatamente as pessoas afirmavam que não se suicidariam porque tinham que cuidar dos filhos, ou porque tinham um trabalho muito importante a realizar, um talento único que ainda deveria ser mostrado ao mundo, ou até mesmo velhas lembranças que não poderiam desaparecer assim de forma tão brusca. Depois de ouvir essas respostas, Frankl notava que todas as pessoas – apesar das situações absurdas e difíceis que poderiam estar vivendo – agarram-se a algo, a um projeto, a uma missão ou alguém; realidades estas que fazem com que, para elas, a vida ainda tenha valor e sentido. E a partir dessas respostas, Frankl começava a construir com seus pacientes a descoberta de um sentido para a existência.
Dessa forma, para Viktor Frankl existem três modos de se evitar o vazio existencial e encontrar um sentido para a vida: 1) dedicando-se à pratica de algo; 2) experimentar algo ou amar alguém; 3) enfrentar um destino inevitável e fatal com atitude de firmeza[5]. Estas três vias possuem uma característica comum fundamental que o fundador da Logoterapia chama de autotranscendência, que consiste no movimento de sair de si mesmo, de deixar o próprio egoísmo e seus desejos, para entregar-se totalmente à uma realidade exterior, seja uma ideia, um projeto ou alguém. Como o próprio autor afirma: “entendo por autotranscendência o fato antropológico fundamental de que o ser humano se remete sempre, mais além de si mesmo, a algo que não é ele: a algo ou alguém, a um sentido que o homem busca ou a um semelhante com quem se encontra. E o homem se realiza si mesmo na medida em que se transcende: ao serviço de uma causa ou no amor a outra pessoa. Em outras palavras, o homem só é plenamente homem quando se sacrifica por algo ou se entrega por outro. E é verdadeiramente homem quando se deixa em segundo plano e se esquece de si mesmo”. [6]
Desta maneira, a questão do sentido de nossas vidas está intimamente ligada com a questão de dar-se aos demais e a realidades exteriores a nós mesmos. Desde uma postura egoísta e centrada somente nos próprios desejos de autorrealização, é impossível encontrar sentido à vida e, consequentemente, a felicidade[7]. Isso explica porque atualmente existem tantas pessoas que experimentam uma ausência de sentido e são infelizes. Isso ocorre devido ao fato de que o sistema no qual vivemos nos ensina que a felicidade está justamente na autorrealização, na satisfação dos próprios desejos pessoais e na busca pelo prazer. Tais realidades não trazem a felicidade, pelo contrário, levam-nos a experiência de vazio existencial e ausência de sentido. Sendo assim, o sentido da vida e a felicidade estão justamente na ação de dar-se e entregar-se pelos demais. Cada ser humano está chamado a descobrir o sentido de sua existência a partir este parâmetro da autotranscendência.
Você já parou para refletir se em sua vida o primordial é a entrega pelos outros e a autotranscendência? Ou você se locomove mais desde padrões egocêntricos e de auto-realização? É o sentido de sua vida que está em jogo! Pense sobre isso.

Autor:  Prof. Msc. Arnin Braga





[1] FROMM, Erick. La vida auténtica. Editora Paidós: Barcelona, 2007. p. 27.
[2] Cf. FRANKL, Viktor. Em busca sentido. 45ª ed.  Editora Vozes: Petrópolis, 2019, p. 124.
[3] FRANKL, Viktor. Em busca sentido. 45ª ed.  Editora Vozes: Petrópolis, 2019, p. 125.
[4] FRANKL, Viktor. Em busca sentido. 45ª ed.  Editora Vozes: Petrópolis, 2019, pp. 124-125.
[5] Cf. FRANKL, Viktor. Em busca sentido. 45ª ed.  Editora Vozes: Petrópolis, 2019, p. 135.
[6] FRANKL, Viktor. El hombre doliente. Editora Herder: Barcelona. pp. 62-63.
[7] Cf. FRANKL, Viktor. Em busca sentido. 45ª ed.  Editora Vozes: Petrópolis, 2019, p. 135.


quarta-feira, 31 de julho de 2019

O CORVO E A COVA: uma análise da finitude humana a partir do poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe


O poema “O Corvo” (1845), do poeta romântico norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), narra a história de um viúvo que, durante uma sombria madrugada, recebe uma estranha visita em seu cômodo: um corvo, mensageiro do mundo dos mortos. A ave pousa sob o busto de Palas Atenas – que na mitologia grega é a deusa da Razão – e observa friamente ao viúvo. Este, imediatamente pergunta ao corvo, ave das trevas, sobre o destino de sua finada esposa: Leonora. O viúvo pergunta-lhe também se um dia voltará a vê-la, se tornará a sentir o calor de sua presença e a vitalidade do amor experimentado na juventude, vivido ao lado de sua amada. Mas a única resposta do corvo é um lacônico: "Nunca mais!"
"Nunca mais" é a resposta que o tempo nos dá às recordações passadas. "Nunca mais" é a assertiva inclemente que a vida dá para os abraços sonhados, os amores não dados e os tempos desperdiçados. Bem como há um "nunca mais" para tudo de bom que se foi vivido, e que hoje, não é mais. "Nunca mais" o ontem. "Nunca mais" o hoje. E "nunca mais" será o amanhã vivido como se fosse eterno, pois a lição do corvo de Edgar Allan Poe é esta: a vida se esvai e nunca mais retorna.
O corvo de Poe repousa sobre o busto de Atenas, a deusa da Razão, revelando-nos simbolicamente que, ante a irremediável presença da morte, não há aparelho filosófico e racional que nos faça escapar da mesma ou salvar aqueles que amamos das garras do dia derradeiro. Esta impressão foi notada pela personagem de Machado de Assis (1839-1908), Brás Cubas, na ocasião do funeral de sua mãe: "Era a primeira vez que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de ouvir dizer; quando muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que acompanhei ao cemitério (...). Mas esse duelo do ser e do não ser, a morte em ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar" [1].
Outra célebre personagem que constatou a inércia da Razão frente ao corvo da morte foi o russo Ivan Ilicht, criado por Liev Tolstoi (1828-1910) em sua obra “A morte de Ivan Ilicht”, que em seu leito de morte reflete:
"O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kieseweter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal — encerrava um raciocínio que lhe parecia exato em se tratando de Caio, mas não da sua própria pessoa. Caio era um homem em geral e devia morrer. Ele, porém, não era Caio, não era um homem em geral; era um homem à parte, inteiramente à parte dos outros seres: ele era Vânia [diminutivo de Ivan], com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com seus brinquedos, com sua pajem, com o cocheiro, depois com Kátenka, com todas as alegrias, todas as tristezas, todos os entusiasmos da infância, da adolescência, da juventude (...). Caio é de fato mortal e é justo que morra. Mas eu, Vânia, Ivan Ilitch, com todas as minhas idéias, com todos os meus sentimentos — isso é coisa inteiramente diversa. E é impossível que eu tenha que morrer. Seria por demais horrível (...). Ivan Ilitch esforçava-se por desviar o pensamento dela (a morte), mas a maldita continuava a sua obra, chegava, postava-se diante dele e o olhava. Ivan Ilitch sentia-se paralisado, seus olhos se apagavam e ele indagava de novo: 'Será possível que seja ela a única verdade?' (...) Em seus esforços por fugir a esse estado, Ivan Ilitch procurava outras consolações, outros tapumes; e esses tapumes surgiam a um apelo seu e por um breve momento pareciam protegê-lo; mas quase que imediatamente após, sem desaparecer, se tornavam transparentes, como se ela (a morte) os atravessasse, e nada conseguia ocultá-la." [2]
Dessa forma, podemos constatar que para Poe, nem o busto de Atenas (a razão) é capaz de espantar ao corvo sombrio (a morte) e suas cortantes palavras: "Nunca mais". Sendo assim, a lição do corvo ao viúvo de Poe continua atual, em todas as noites, em todos os momentos de fragilidade, em todas as lembranças nostálgicas de um passado bem melhor que o atual presente, e em todas as noites em claro por causa de preocupações futuras: "Nunca mais!". O tempo escorre... E a vida, uma vez que se vai, "nunca mais".

Autor: Arnin Braga







[1] ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Egéria, 1978, p. 75.
[2] TOLSTOI, Liev. A Morte de Ivan Ilitch. Tradução: Marques Rebelo. E-book, cap. VI, pp. 31-33.
*Ilustrações de 1875 do pintor impressionista francês Édouard Manet (1832-1883), feitas para a versão francesa do poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

PROFESSOR SE VESTE DE “HARRY POTTER” E DÁ UM SHOW EM SALA DE AULA



Aconteceu numa cidade do Noroeste do Paraná, em Paraíso do Norte, um professor formado em filosofia, desafiado pela falta de interesse dos alunos, que diziam não gostar da matéria, resolveu se dedicar bastante para demonstrar que a Filosofia é capaz de transformar a maneira de pensar de todos que se põem a ouvir o que ela (Filosofia) tem a dizer.
Uma das mais incríveis façanhas foi realizada pelo professor quando ele resolveu se vestir de Harry Potter, e sair caminhando pelas ruas da cidade em direção ao Colégio que leciona. Ao chegar chamou a atenção de todos, logo “de cara”. Houve aquele “uhul” nos corredores, enquanto ele caminhava para a classe.
Dentro de sala os alunos ficaram espantados com tamanha criatividade, ao ponto de não se conterem e confessarem que estavam se sentindo atraídos pela disciplina, simplesmente pelo fato do professor de filosofia deles repassar o conteúdo com tanta alegria, ao ponto de repassar um sentimento contagiante.
O motivo da fantasia, não era porque havia festa na escola, ou coisa do gênero, mas por causa do conteúdo – Filosofia da Ciência: a alquimia Medieval e a busca pela pedra filosofal, que levou o professor investir nas roupas e preparar a aula com tanta maestria, coisa refletida no sorriso dos alunos, que não desviavam a atenção enquanto o professor falava...
Confesso que isso me deixa muito contente, em saber que ainda existem profissionais que dão o seu melhor para que a aprendizagem aconteça, no caso deste professor, que talvez, gastou mais do que tinha, para proporcionar uma aula incrível e assim fisgar os alunos para a importância da Filosofia, esta que é, com seus encantamentos e seduções, a mãe de todas as ciências.
Segue o link para ver as fotos, pois penso que coisas boas devem ser divulgadas.


Prof. Carlos Augusto.








segunda-feira, 20 de agosto de 2018

SOBRE SER UMA REFERÊNCIA

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 Hoje pela manhã, ao tomar banho, deparei-me com a resistência do chuveiro queimada e disse a mim mesmo: ─ hoje será um dia daqueles...
           Vesti-me, esperei o comércio local abrir. Dirigi-me ao centro com o pensamento em devaneios. Já dentro do supermercado, após pegar uma resistência para substituir a que queimara no meu chuveiro e com o olhar duvidoso sobre o que escolheria para preparar o almoço, senti o toque de uma mão no meu ombro esquerdo, seguido de uma voz feminina que me interpelava:                       
            ─ Por acaso o senhor é o professor Alexandre Franco?
            ─ Sim - respondi.
            ─ Olha, professor, gostaria de agradecer ao senhor pelo meu filho; ele fala muito em você, às vezes até se emociona!
Os olhos dela brilhavam de orgulho pelo filho. Fiquei um tanto perplexo, e, embora a conhecesse, indaguei o porquê daquela emoção.     
– É que meu filho passou em Matemática e escolheu ser professor por sua causa. Vive dizendo que você é um “puta de um professor” e que se inspirou em você para tomar a decisão de ser um docente, embora ele também tivesse passado em Administração e Ciências Contábeis.
Confesso que não sabia se me alegrava junto àquela mãe ou chorava, pois eu, enquanto professor, estou desempregado e, portanto, de pouco adianta ser um “puta de um professor” se não estou no meu “habitat natural” - a sala de aula.
As políticas atuais estão solapando a educação em nível nacional. Todavia, isso é assunto para outra discussão, pois o que nos interessa aqui é a reflexão de como não temos o domínio das variáveis que nos cercam no dia a dia, de uma resistência queimada a ser referência para uma grande escolha existencial na vida de um jovem estudante.
Foram apenas dois anos de aula para aquele jovem – cujo nome deixo em segredo para não constrangê-lo futuramente – e isso me faz refletir:
─ E toda caminhada que ele fez até o sucesso da  aprovação no vestibular na tão sonhada faculdade pública? Quantos professores, desde a pré-escola até o 3º do Ensino Médio, passaram pela vida dele? O que fizeram? Como um simples professor/”filósofo” poderia tê-lo instigado tanto assim?
Talvez a resposta para entender tudo isso esteja em dar o melhor de si, em aproveitar o potencial que aqueles alunos, naquelas salas lotadas, têm a oferecer. Ensiná-los não uma matéria, mas uma disciplina, formá-los como pessoas, não fazer o que os manuais didáticos pedem, porque a vida simplesmente não é restringida a manuais e regras. Como dissemos no começo dessas linhas, não conseguimos abarcar todas as variáveis que nos cercam, no entanto, quando a oportunidade de transformar uma vida se apresentar, não sigamos os clichês, mas doemos o melhor de nós.  Fazendo o uso de um clichê apenas como recurso pedagógico, sejamos nota 10, porque de 7,0 o mundo está cheio. Sejamos, enfim, referências e não omissões.


                                                                              Autor: Alexandre Franco

domingo, 5 de agosto de 2018

O amor de onde ele vem?

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De onde vem o amor? Onde está sua origem e sua fonte? Onde está sua pátria, o lugar de onde emana? Este lugar é secreto, ou está no secreto. Há, no foro íntimo, um lugar de onde procede a vida do amor, porque “é do coração que procede a vida”. mas tu não podes descobrir este lugar. Se antes de penetrares, a origem se esconde na distancia e no mistério; e mesmo quando estás no mais profundo, ela recua sempre, como a da fonte desse lugar pro vias múltiplas, nenhuma das quais, no entanto, te permite remontar à sua origem secreta. Deus habita em uma luz de onde emana cada raio que ilumina o mundo, ao passo que ninguém pode por meio deles voltar à fonte e ver a Deus, pois os caminhos da luz se transformam em trevas quando uma pessoa se volta para o princípio. Da mesma forma, o amor habita no secreto, ou se acha escondido no mais profundo do coração [...] Os raios do sol nos convidam a contemplar à sua luz a magnificência do mundo, mas cegam, para puni-lo, o temerário que se voltar para descobrir a fonte do seu esplendor. A fé se oferece ao homem e lhe oferece guiá-lo no caminho da vida, mas petrifica o audacioso que se voltar e se envolver imprudentemente em compreendê-la. Algo semelhante se passa com o voto e a prece do amor,é que sua fonte secreta e sua vida oculta no foro íntimo permanecem como um mistério, e que ninguém tenha a insolente curiosidade de aí penetrar importunamente para ver o que, aliás, escapa à vista, mas cuja alegria e benção se corre risco de perder por sua indiscrição.

                                                                    Søren Aabye Kierkegaard, As Obras do Amor de 1847.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

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ENTRE CILA E CARÍBDIS
                          O drama dos rostos esquecidos da guerra em Síria e no Iraque


         Na obra de Homero intitulada Odisseia podemos encontrar um episódio emocionante e ao mesmo tempo dramático, na qual o herói Ulisses e seus companheiros, para poderem retornar a casa depois de anos viajando pelo mar, devem navegar por um estreito rochoso mortal, onde se escondem duas criaturas mitológicas monstruosas e assassinas: Cila e Caríbdis. A primeira habita os altos picos do estreito, atacando com suas várias cabeças a qualquer embarcação que passa; enquanto que a segunda vive no fundo do mar e é tão grande que, só o ato de abrir sua enorme boca, provoca um gigantesco redemoinho que suga para as profundezas todos os barcos que estão próximos. Ulisses e seus amigos estão em um beco sem saída. Para eles não existe escapatória: alguns são mortos por Cila, enquanto outros são engolidos por Caríbdis. Somente o herói Ulisses consegue sobreviver.
         Este dramático episódio da Odisseia não ficou apenas no mito. Uma analise atenta da história da humanidade é capaz de constatar que inumeráveis vezes o homem esteve entre “Cila e Caríbdis”, ou seja, entre duas grandes utopias ou ideologias que, ao entrarem em conflito, arrastaram a boa parte da humanidade, sacrificando a muitas pessoas por em nome de seus ideais. Um exemplo não muito distante de nós é a Guerra Fria. Quantas vidas inocentes foram sacrificadas em vários países devido a constantes guerras civis entre socialistas e capitalistas, onde cada ideologia tentava construir o mundo à sua maneira. Atualmente, os dois grandes “monstros” que estão causando inumeráveis mortes de pessoas inocentes são a chamada “guerra santa”, empreendida por grupos radicais mulçumanos, como o Estado Islâmico, por exemplo; e a contraditória “guerra ao terrorismo” praticada pelas potências ocidentais como União Europeia, Rússia e EUA. Este novo conflito internacional se apresenta a nós como as novas “Cila e Caríbdis” dos nossos tempos. E infelizmente, assim como ocorreu com Ulisses e com seus amigos, muitas pessoas estão presas em meio a estas duas forças antagônicas que fazem a guerra.
         Nas noticias e nos meios de comunicação somos informados frequentemente da morte de milhares de pessoas por causa deste conflito. Seja em algum povoado perdido do Iraque; ou em alguma grande cidade da Síria; ou inclusive no coração da Europa – como foi o caso dos atentados em Paris (13/11/2015) – somos informados em tempo real da quantidade de mortos e feridos nesta guerra. Cada bombardeio na Síria ou no Iraque, ou a cada atentado terrorista ao redor do mundo, trazem consigo sua matemática macabra: o número de mortos. Mas o que são estes mortos para nós? Apenas estatísticas? O resultado de um cálculo médio que nos aproxima a um resultado exato?
         Não são números que morrem nessa guerra. Nesse conflito morrem pessoas concretas. Morrem rostos que nunca mais se repetirão nessa terra. E o rosto aqui possui um valor simbólico tremendo: é a metáfora de nossa condição absolutamente singular, única e irrepetível. O rosto indica que cada pessoa possui um valor infinito, que não pode ser manipulado nem instrumentalizado por ninguém. Assim afirma o filósofo judeu, e sobrevivente do holocausto, Emmanuel Lévinas, em sua obra Totalidade e Infinito:“A nudez do rosto não é o que se oferece a mim porque o desvelo (...). O rosto volta-se para mim e é isso sua própria nudez. Ele é por si próprio e não por referência a um sistema (...). A verdadeira essência do Homem apresenta-se no seu rosto”[1]. Nunca existiram sob o sol desse mundo dois rostos iguais. Na metáfora do rosto reside a dignidade do homem, seu valor de ser único e irrepetível. Por essa razão, nunca estará legitimado o sacrifício nem sequer de uma só pessoa no altar dos ideais, utopias e ideologias humanas. Neste sentido, podemos chegar a conclusão de que em cada rosto que morre nessa “guerra santa” ou “guerra contra o terrorismo”... a humanidade sofre uma grande perda irreparável!
Sendo assim, a metáfora do rosto proposta por Lévinas e relida no contexto da guerra na Síria e no Iraque – e em muitos outros países – se apresenta como uma voz que denuncia a destruição da alteridade e da singularidade de cada pessoa por parte das grandes ideologias que atualmente matam milhares de homens e mulheres inocentes em nome da “segurança do Ocidente”, da “guerra contra o terrorismo”, da “guerra santa” ou “em nome de Deus”. Frente a este conflito injustificável que acompanhamos nas notícias diárias, a metáfora do rosto nos diz: entre “Cila e Caríbdis” – entre a “guerra santa” dos grupos islâmicos extremistas e a “guerra contra o terrorismo” das potências ocidentais – não morrem milhares de pessoas. Morrem rostos concretos. Rostos que nunca mais serão vistos sob o sol dessa terra. Rostos sacrificados em nome de grandes ideais fajutos que escondem em si o desejo de poder e domínio. Rostos que tinham sonhos, defeitos, amores e, principalmente, uma história! Uma história interrompida, agora esquecida e que nunca mais se repetirá.
 Como dizia Cristian Boltmanski: "Em uma guerra não se mata a milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias".


Autor: Arnin Braga
        



[1] LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Editora edições 70: Porto, 2011, p. 61.

domingo, 9 de março de 2014

O ESTADO MODERNO (THOMAS HOBBES – 1588-1679)

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Para criticar o comportamento dos homens em sociedade e evidenciar a alteração das instituições políticas, Thomas Hobbes lança mão de um grande número de fatos e acontecimentos ocorridos na Inglaterra do século XVII (seu país de origem).
O mundo residido por Hobbes[1] era particularmente abastado em contradições políticas  e religiosas. Segundo este filósofo, o ponto de partida da ação dos homens e, consequentemente, da ação moral e política é o esforço e empenho denominado por ele de Conatus, isto é, o movimento que todo ser faz para se autopresrvar. Hobbes utiliza-se da condição de natureza dos homens a qual ela chama de (estado de guerra), com o intuito de eliminar a mesma por meio da criação de um Estado soberano. Hobbes emprega sua teoria política de forma radical, criando de maneira assombrosa o temível Leviatã. Diante desse monstro (Leviatã), os homens[2], constituídos em seu estado de natureza não suportando mais o ataque de uns contra os outros acaba abdicando de suas liberdades e colocando-as nas mãos do Estado e a razão disso é o medo da morte violenta. Hobbes pretende, portanto, construir sua filosofia política sobre alicerces sólidos e incontestáveis, tendo como critério o exame da condição dos homens antes da existência do Estado soberano.
Se antes os homens se autodestruíam por não haver um poder absoluto capaz de controlá-los, agora, a criação do Estado será decisiva para que na sociedade se construa uma vida de paz e segurança. Assim, o papel do Estado soberano será o de manter a ordem social para que não mais haja guerras entre os homens. Contudo, sabendo que estes encontram-se agora diretamente sobre a tutela do Estado, sabe-se também que o mesmo (Estado), lança mão das liberdades desses indivíduos. Nesse sentido, ao imaginar os homens na condição de guerra, o filósofo não está sendo ingênuo, mas crítico. Portanto, seu objetivo é tornar legítimos o governo e as obrigações dos súditos.
Para a sociedade civil existir no pensamento hobbessiano, faz-se necessário compreender o papel das leis e da justiça. Para Hobbes, é preciso constituir leis pelas quais será determinado o que é justo ou injusto diante das ações dos homens. Assim, a aplicação das leis está ligada à justiça, a fim de fazer com que os homens se respeitem mutuamente. Dessa forma, a criação do Estado Leviatã torna-se prioridade no pensamento hobbesiano. Contudo, a criação desse Estado não é útil sem a renúncia dos direitos que os homens têm sobre todas as coisas dadas no estado de natureza, visto que a paz não é possível sem o respeito às leis.
A Origem e natureza do Estado soberano, diz respeito ao poder absoluto que este possui diante de seus súditos. Tal aspecto só é compreensível a partir da trajetória que foi traçada pelo filósofo para que, por meio desse artifício (Estado), se estabelecesse a ordem na sociedade como também a segurança à vida de seus súditos. A razão disso é tentar compreender a situação hipotética (ou real) dos homens sem o deus mortal (o Leviatã). O estado de guerra em que se encontram os homens é a falta de um poder organizador, este assegurado por um pacto. O Estado sem a ação das leis e da justiça leva os homens a anular esse pacto. Por conseguinte, para Hobbes, é preciso que o homem "não faça ao outro aquilo que não gostaria que fizesse a si", é preciso, então, que os homens evitem tudo o que prejudique a concórdia; que o mal seja vingado sem crueldade.
É sabido que esse filósofo pode ser considerado o primeiro teórico do contratualismo moderno, isto é, o grande pensador do Estado moderno, demonstrando, como essência de sua teoria, a defesa das ideias absolutistas. A grande obra de Hobbes intitulada o Leviatã surge para esclarecer a natureza do homem e a necessidade de se criar um Estado capaz de assegurar a convivência entre os homens. A criação do Estado soberano (Leviatã), surge para esclarecer a natureza dos homens e a necessidade de se criar um Estado organizado[3]. No entanto, pode-se dizer que hoje residimos no mundo que Hobbes imaginou, um mundo onde a autoridade do homem é algo que exige justificação, e benquisto automaticamente por poucos, um mundo onde a desigualdade social e política também parece questionável, e onde as autoridades religiosas encaram uma disputa expressiva.        

"O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos".
Thomas Hobbes

                                                                                                               Autor: Carlos Augusto



[1] HOBBES, Thomas. Leviatã. Vol (I)São Paulo: Nova Cultural, 1988.
[2] LIMONGI, Maria Isabel. O Homem excêntrico - paixões e virtudes em Thomas Hobbes. São Paulo: Loyola, 2009.
[3] CHITOLINA, Claudinei Luiz; PEREIRA, José Aparecido; OLIVEIRA, Lino Batista de; BORDIN, Reginaldo Aliçandro (Orgs.). Estado, Indivíduo e Sociedade - problemas contemporâneos. Jundiaí: Paco Editorial, 2012.



   
  


O VAZIO EXISTENCIAL E A BUSCA DE SENTIDO: Como evitar o primeiro e encontrar o segundo?

O cotidiano é o lugar onde a vida realmente acontece. Nele vivemos nosso dia-a-dia, nos relacionamos, realizamos nossas atividades e exi...